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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A Rita me deu de Presente

Obrigada Rita Querida!

Esse é um texto da jornalista Rita Braga, uma amiga que ganhei na temporada do ccbb

( vejam as postagens dessa época em todas as postagens na barra ai ao lado) Ela chegou de fininho cheia de perguntas e com muita vontade de ouvir,e olhos curiosíssimas. E tempos depois me deu esse presente que publico aqui na integra. Presente pra não esquecer mais e pra dividir com vocês!



“Um rio é um caminho que vai...”

Histórias dentro de histórias com Kiara Terra

Rita Braga

Falação! O círculo do saguão do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, está totalmente preenchido por crianças de todas as idades! Os pequenos brincam entre si, escorregando entre as almofadas coloridas, enquanto os outros, um pouquinho maiores, com seus 30, 40, 50, 60 anos... se ajeitam ao redor! Todo mundo falando ao mesmo tempo! Crianças e adultos disputando amorosamente qualquer cantinho ou degrau... todo mundo quer olhar a moça de vestido pink, meias e botas pretas.

O nome condiz: Kiara! A pele muito branca é iluminada por um rosto sempre aberto. Os olhos amendoados e grandes, mas levemente puxados, passam a maior parte do tempo quase espremidos pelas maçãs em sorriso. Olhando de fora, tem-se a impressão de que Kiara conhece todos há muito tempo.

Aliás, ali, é o contra-regra o motivo do estranhamento... ele ajusta fios, passa fita isolante e fita crepe para que tudo esteja no lugar. Os mais curiosos o examinam um instante, mas – é claro – logo todos os olhos se voltam para a alegria em pink! A flor de crochê que ela usa na gola do vestido consegue ser ainda mais rosa!

Rosa é a fita que segura a tampa da mala vermelha, repleta de quinquilharias coloridas. Uma sapateira de pano torna-se estante. Guarda objetos mágicos com suas formas e cores: espanador, trapo, cano, conduíte, escumadeira, pedaço de luminária... todos são personagens à espera da história! O espaço ferve em perguntas a esmo:

“Que horas são?”

“Mãe, é ela?”

“Demora?”

“Não sei... Dá tempo de ver a exposição...?”

Quem já tem ideia das ilustrações expostas nos três andares e no subsolo da instituição até hesita por alguns instantes, afinal, a exposição Era uma vez... arte conta histórias do mundo é um evento pioneiro reunindo grandes nomes da arte e referências populares dos contos que circulam entre nós há muitas gerações. É dentro deste contexto que o CCBB oferece ao público o encontro com pessoas especiais que alimentam o nosso imaginário desde que o mundo é mundo: os contadores de histórias. A tradição oral permeia o evento, com homenagens aos compiladores mais conhecidos – escritores que se dedicaram aos contos de fadas e ilustradores que deliciam os olhos com suas leituras e interpretações. São mais de 40 artistas. Um convite ao olhar... Mas basta uma voz e a hesitação acaba!

“Olha! Acho que vai começar!” – uma mão se levanta no amontoado de criança e aponta a moça em aquecimento.

Ela alonga os braços, a coluna, sorri às crianças, cumprimenta de novo... olha os fotógrafos... está tensa? Corre no mesmo lugar, dança, e esfrega as mãos como quem tem frio... mas sorri de um jeito que a gente logo sabe que ela não tem!

O burburinho aumenta com sua entrada nesse grande círculo de pessoas que, sem conhecê-la, já a esperam há tanto tempo. Dessa vez, é ela quem inicia as perguntas:

“Oi, pessoal! O que a gente faz quando quer conhecer alguém?”

“Fala o nome!”

“Se apresenta!”

“Chega perto!”

Todo mundo quer responder e participar da conversa que mal começou.

E ela afirma:

“Para poder contar minha história e dizer quem sou, preciso antes contar a história dos meus pais. Minha mãe nasceu em Fernandópolis. Quem conhece Fernandópolis levanta a mão!!!”

Os bracinhos gorduchos em moletons e malhas coloridas levantam só pelo gosto de levantar... Tudo é festa! A moça continua contando as peripécias que a trouxeram ao mundo e quando comenta que se tornou adulta e fez faculdade, recebe a indispensável colaboração de um ultrajovem da plateia:

“Minha mãe também faz faculdade!”

E ela repete o comentário ao público, valorizando a informação com um caloroso:

“Quem aqui já fez faculdade levanta a mãããão!!!” – levantando o próprio braço, entusiasmada, ela arranca cada vez mais sorrisos. Depois convida: “quem não fez faculdade levanta a mããããão!!!” E a criançada contemplada ergue novamente os braços... e completa com um delicioso e sorridente “e quem aqui acha que a vida já é uma faculdade levanta a mãããooo!!!” – e eu me pergunto: há como não levantar o braço ou pelo menos sentir-se intimamente movido a levantá-lo?”

É isso! Há menos de cinco minutos com o público. A história nem sequer começou e a gente já não consegue se defender de tanta alegria!

Quem tem um amor por perto abraça... quem não tem se encosta e abre o coração porque ela já avisou... Esta será uma história de amor! Na verdade ela só cantarolou uma melodia romântica e as crianças deduziram (ou “decretaram”!) o tema.

É possível que muita gente conheça a história A Bela Adormecida do Bosque. Porém, não há dúvidas de que aquela versão apresentada em 30 de maio de 2009 foi única! Afinal, a contadora de histórias, Kiara Terra, trabalha com improvisos... Cada dia é único. Assim é a vida.

A moça sorridente de vestido rosa

“Vamos combinar assim: você volta neste mesmo horário, neste mesmo lugar, na semana que vem?” – propõe a contadora.

“Só se você vier com este mesmo vestido rosa!” – diz uma garotinha que não queria que a sessão acabasse.

A primeira vez que vi Kiara Terra foi em 27 de setembro de 2008 numa apresentação na Livraria Nove Sete, na Vila Mariana. Era um evento vinculado à ONG Matrice – Ação de apoio à Amamentação, e a história contada naquele dia foi A incrível história de Lolo Barnabé, escrita por Eva Funari (Editora Moderna, 2001).

Naquele dia tive uma imensa surpresa diante das contribuições do público formado basicamente por crianças com idades entre um e quatro anos. O espanto dos pais diante dos filhos também era nítido. Afinal, Lolo Barnabé é um personagem que vai “inventando” coisas conforme as necessidades, mas ninguém esperava, por exemplo, que ao aparecer uma primeira briga de casal, um menino de quatro anos sugerisse imediatamente a invenção de um “advogado” para “solucionar o problema”. Nessa hora, Kiara olhou para os pais com os olhos arregalados e, erguendo o braço, pediu:

“Quem acha que esta história está perigosa demais, levanta a mão!”

O riso momentâneo aliviou o ambiente, mas outras histórias também apresentaram surpresas assim. Trata-se de uma consequência natural da opção pelo improviso. Ao apresentar o enredo de maneira “aberta” – com espaço para sugestões e interferências do público – elementos tradicionais são repensados de acordo com cada repertório e contexto.

Nem sempre é preciso resposta. Aliás, para Kiara, a pergunta ideal é aquela com “caroço” – que vira semente para o futuro. Sem pressa. Perguntas com caroço são justamente aquelas que abrem o pensamento para outras perguntas. Ancorada nas linhas conceituais de História Aberta, Poética interativa e Processos colaborativos de construção de narrativas, a técnica desta contadora é, portanto, um estímulo para a reflexão em diferentes estratos de significado.

Assim, se a proposta é apresentar um conto de fadas, certamente, o contato com o público trará à tona elementos necessários para uma “princesa” no século XXI. No dia 30 de maio, quem estava no saguão do CCBB pôde comprovar essa atualização ao ver entre os dons concedidos por fadas à Bela Adormecida, “o dom de não ficar presa no trânsito, ou pelo menos, de não ficar nervosa com isso...” e o invejável “prazer de comer o quiser, sem engordar”.

Quando Kiara Terra soube que eu tinha o intuito de registrar um pouco da singularidade de seu ofício, sorriu e “abriu” outras histórias. Histórias dela, como pessoa contadora e ouvinte, e bastidores de algumas apresentações que eu mesma vi e ouvi. Contou até seu ritual de “dar risada no banheiro para aquecer o coração” antes de começar uma história.

Talvez por reconhecer esse “coração quente”, o público todo consegue se sentir “dentro” do universo proposto. Ela acolhe adultos e crianças com o que há de essencial em um bom contador: boa vontade e audição atenta. Kiara propicia a experiência de, em qualquer história, reconhecer um diálogo amplo que ultrapassa os supostos limites entre público, narrador e o universo como um todo. Tanto que não é raro perceber nela e no público momentos de profunda comoção. E se as histórias que ela conta são em geral contos de fantasia, fica a pergunta: quanto de realidade também está presente na mais absurda ficção?

Num cotidiano mediado por máquinas apressadas, quando Kiara começa, geralmente todo mundo para e escuta. Há quem diga que as pessoas param somente para ouvir uma voz de si mesmas, escondida na voz da contadora. Será?

O ato universal de contar e ouvir histórias

No livro O ofício do contador de histórias, da brasileira Gislayne Alencar Matos e da africana Inno Sorsy (Editora Martins Fontes, 2007), percebe-se que as relações estabelecidas por meio de um conto são tão infinitas quanto as técnicas e características pessoais que se manifestam no ato de contar.

Há quem conte histórias com o uso de bonecos, objetos, instrumentos musicais... Há quem prefira apresentar ilustrações, há quem use um figurino especial para cada história, quem conte de pé, sentado próximo a uma fogueira ou em um lugar especial, e há quem tenha alguma outra particularidade, como se pautar por técnicas de improvisação, como faz Kiara.

Para quem quer saber mais sobre as “Histórias abertas” e o jogo de improvisação, Kiara indica uma série de referências que surgiram na pesquisa que vem desenvolvendo desde o período da faculdade: Brecht, Lígia Clark, Hélio Oiticica e seus Parangolés... e muito mais.

O início da apresentação me fez rememorar um dos saberes comentados por Walter Benjamin (O narrador, Editora Brasiliense, 1987), com o qual tomei contato nos “meus” tempos de faculdade: o ato de narrar é um ato coletivo. Outras referências também foram despertadas. Especialmente, Umberto Eco, estudioso a comentar a “obra aberta”. Eco escreveu também sobre os limites tênues entre interpretação e superinterpretação, e fiquei tentando imaginar o que ele pensaria diante de experiências como aquelas que vivenciei na Livraria, no Centro Cultural Banco do Brasil e na Praça Victor Civita.

A moça, que recentemente lançou seu primeiro livro (A menina dos pais-crianças, Editora Ática, 2009) traz também na escrita um turbilhão de metáforas criativas em linguagem perfeitamente reconhecível a quem já a ouviu contar.

Neste elo entre oralidade e literatura, reconheci ainda um conceito de leitura defendido por Eni Orlandi (Discurso e leitura, Editora Cortez, 2006): “ler é saber que o sentido pode ser outro”. No trabalho de Kiara o convite à interação, é, em alguma instância, um convite a ler e a fazer “releituras”, atualizando os contos e despertando-nos, enquanto público, para nosso patrimônio contido na Literatura e na Tradição Oral. Assim como cada diálogo, cada conto é, antes de tudo, um convite a uma travessia.

No meio do caminho havia Natan

Numa tarde de julho, no café da Livraria da Vila, na Vila Madalena, Kiara selecionou alguns episódios marcantes que para ela refletem bem a complexidade do ato de contar. A conversa às vezes era interrompida por um cumprimento carinhoso, inclusive de mães de crianças que cresceram ouvindo e contando histórias com ela. Em dez anos de carreira, há casos de crianças e adolescentes que mantém o hábito de fazer em casa, elas mesmas, suas próprias sessões de histórias. Muitos se tornaram amigos e a acompanham por diversos lugares. Outras vezes, um único encontro torna alguém inesquecível, e a contadora, atenciosamente, registra algumas dessas experiências em seu blog (www.kiaraterra.blogspot.com).

Tive a oportunidade de presenciar um encontro especial no dia 30 de maio, no CCBB. A história da Bela Adormecida do Bosque seguia seu rumo entre risos e invenções, mas “no meio do caminho havia Natan”.

Não. Não era uma pedra… Nem de longe o pequeno Natan lembraria uma pedra. Na curiosidade de seus dois anos e meio, Natan examina com gosto quem se atrever a olhar seus olhinhos brilhantes de jabuticaba. Ele tem a pele negra, os cabelos enrolados em minúsculos caracóis, e neste dia veste um confortável moletom cinza claro. Como outros garotos de sua idade, no decorrer da história Natan senta e levanta o tempo todo, ora mexe no tapete, ora se encosta na almofada colorida. Tudo parece divertido, belo e bom até o momento em que a contadora assume um ar de vilã para interpretar em caretas a fada (quase bruxa) que não foi convidada para abençoar a princesa. Natan toma um susto!

O choro é intenso, desesperado e imediato! Aliás, quase se pode garantir que o desespero só não é maior que o da própria Kiara que reconhecendo a situação reage muito rápido! Num sussurro afinadíssimo ela inicia a canção que logo se torna um coro sereno entre todos os presentes:

Alecrim

Alecrim dourado

Que nasceu no campo

Sem ser semeado

Foi meu amor

Que me disse assim

Que a flor do campo é o alecrim

A beleza e o carinho das vozes acalmam o menino, para alívio da mãe e, claro, de Kiara, que rapidamente aciona o apoio público perguntando baixinho e erguendo a mão:

“Quem aqui, sem querer, já assustou alguém que gosta? Levanta a mão…”

“Quem aqui já assustou alguém?”

“Quem aqui já se assustou consigo mesmo!?”

E eis o mais alegre e solidário levante de bracinhos, brações, dedos, mãos e até sobrancelhas dando o ponto final a qualquer resquício de tensão.

Mais interessante ainda foi saber que esse recurso de cantar para acalmar Natan, surgiu quase que instintivamente a partir das memórias de uma Kiara criança, deixada na casa da avó, quando a mãe precisava sair. E diante daquele desespero de quem não entende “como a mãe não está ali”, a avó não explicava nada, apenas cantava para o mundo ficar mais confortável. Aliás, em seu livro, essa avó que ensina a neta a cantar também é homenageada. No cotidiano o canto tem ajudado a lidar com as questões mais difíceis, como nos momentos em que a morte – enquanto elemento real – vem na voz de alguém que participa da história.

Aconteceu de um garoto um dia dizer “meu tio morreu” e ela fazer disso o mote para que os demais participantes lembrassem de seus entes queridos, pessoas de quem tinham saudade... e, como numa homenagem, “cantassem uma música bem bonita para eles”. Este é um exemplo de como a vida particular de uma pessoa pode determinar de maneira ainda mais explícita suas singularidades e opções técnicas como contadora.

Vale lembrar ainda que para Kiara “uma boa contadora de histórias precisa ter uma boa relação com as crianças, principalmente, com aquela criança que ela mesma foi um dia”. Isso e – é claro – um pouco de coragem para se entregar ao risco de tomar uma “rasteira” de vez em quando.

Mas, de volta a Natan, e com ele de volta aos sorrisos, o público com tranquilidade acompanhou a história. Até que no “ápice do ápice do ápice” de qualquer história de princesa que se preze, algo ainda mais inusitado aconteceu: bem no momento do beijo que acordaria a princesa, os mesmos olhos de jabuticaba se renderam aos encantos de Kiara com uma deliciosa e sonora gargalhada infantil, daquelas que a qualquer pessoa parece impossível escutar sem rir também.

Kiara, no primeiro instante, até tentou prosseguir com a história, mas o sorriso de dentinhos de leite e covinhas rechonchudas, mais uma vez dominou todo mundo. A moça começou a repetir a cena, e não importava o que acontecesse, no exato momento do beijo, o riso de Natan inundava de gargalhadas sonoras todo o saguão.

Kiara – tão derretida quanto nós – acolhia aquele riso menino com tanto gosto que chegou a cogitar:

“Quem acha que essa princesa não vai acordar nunca mais levanta a mão!”

E lá vamos nós, em nova onda de risos, murmúrios manhosos, e braços… Acolhendo Natan como parte e doçura da história.

Quem são as personagens?

Ufa! Pergunta difícil. Há muitas histórias para se contar. Mas, cá entre nós, é maior ainda a variedade de personagens a cada apresentação. Pois além daqueles, presentes na história, há um “público-personagem”, repleto de caracterizações.

Para quem assiste a uma apresentação, as narrativas são marcadas por um reconhecimento de seu próprio repertório e sua personalidade, enquanto indivíduo. Pois se a história exige conceitos complexos como “foram felizes para sempre”, cada ouvinte é convidado a pesar referências, nem que seja para se chegar à conclusão de que “todo mundo é um pouco feliz para sempre depois de um banho quente...” ou que “feliz para sempre de fato seria caber num mesmo biquíni a vida inteira”.

As crianças menores são tocadas por um maior espanto quando Kiara se mostra muito poderosa, capaz até de descobrir segredos mais que íntimos, ao perguntar publicamente:

“Quem aqui, no meio da noite, se mexe para procurar o lado mais fresquinho do travesseiro?”

“Quem aqui, dentro do mercado, já abraçou uma perna e somente depois viu que aquela perna não era da sua mãe?”

Na maioria das vezes ela nos convida a levantar a mão, mas em casos mais delicados (como ao perguntar “quem já abriu o armário da casa da tia só para ver o que tinha dentro?”), ela também é compreensiva e sugere que levantemos somente as sobrancelhas.

“Um rio é um caminho que vai...”

É assim que funciona: há uma estrutura do conto, mas os detalhes (e os rumos da história) são dados pelo público.

Talvez as grandes surpresas venham destas frases, surgidas no desenrolar dos repertórios coletivos e individuais. Os exemplos são infindáveis, vão de nomes de personagens a atitudes, sentimentos, consequências e até outras intervenções como “trilha sonora”, “figurino” etc.

Kiara comentou que num outro dia, no meio de uma história, ao perguntar ao público “o que é um rio?” Um menino ergueu o braço e respondeu que “um rio é um caminho que vai...” Não se sabe o nome do garoto. Ao participar de uma contação de histórias as pessoas vêm, falam, escutam, sorriem... e, na maioria das vezes, passam! Muitos nomes se perdem ou se recolhem humildes no silêncio desmemoriado do tempo. Mas algo sempre fica, e o que fica é sempre a essência. A base. O que há de coletivo, universal. Alguém duvida que um “rio é um caminho que vai”?

O menino, guardado sem nome na memória de quem esteve presente, continua lá... Sempre repetindo esta frase. Com o tempo ele também passará a ser um menino imaginado – em sua “vaguidão específica”. Somente quem esteve lá soube com algum detalhe o tom de sua pele macia de menino, olhar de atenção e espanto diante do mundo e, principalmente, sua aparente vontade de falar, e seguir adiante, como um “rio”.

Será possível perceber num texto como é esse trabalho interminável de Kiara? Sinceramente, não sei.

É verdade que a moça tem inúmeros recursos profissionais assimilados em sua formação como atriz, pelo Teatro Escola Célia Helena e em Comunicação e Artes do Corpo, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Optou pela técnica da “História Aberta” – que é uma entre as muitas possibilidades para contadores no mundo todo. Mas ao conversar com ela tive a impressão de que essa escolha é mais que somente uma opção técnica, é seu olhar sobre a vida, um jeito cotidiano de lidar com as pessoas, sempre acolhendo de braços abertos os riscos contidos em qualquer aproximação.

Ela disse que até tentou outros modos de contar no começo de sua carreira. Quando recebeu o convite da Editora Ática para participar do projeto Planeta de Histórias, em 1998, procurava manter um roteiro mais “fechadinho” – mais próximo ao que se costumar ver entre os contadores tradicionais. Mas isso durou pouco. Logo, a necessidade de “ouvir verdadeiramente” as colaborações das crianças e incorporá-las às histórias foi se tornando mais forte. E assim Kiara começou a abrir espaço em si mesma e na história – ficando cada vez mais “exposta” e ao mesmo tempo “livre” na improvisação.

É fato também que durante algum tempo trabalhou em dupla e naquele período se sentia mais protegida, pois o público geralmente fica à espera das respostas e reações da parceira – assim, no caso de uma “saia justa”, há alguém ali para ajudá-la a se defender. Hoje, ela até pode topar um evento ou outro em dupla, dependendo da ocasião. Mas reconhece que contando a história sem parceria o público interage mais. Quase se pode dizer que quando se apresentam em duas contadoras, ela tem “uma” parceira. Mas quando está “sozinha” o público todo se torna um parceiro muito mais ativo e múltiplo no jogo de contar.

Kiara mencionou outro episódio especial. No dia em que foi contar a história O patinho feio, no Centro Cultural Banco do Brasil: antes de começar um garoto indicou os microfones de hastes inclinadas em direção a ela e lhe disse “cuidado com a microfonia”. Ela acolheu o comentário registrando-o publicamente e afirmando “tomaremos cuidado”. E começou a história que foi marcada, inclusive por uma mãe cantando Eu não sou cachorro, não – de Waldick Soriano.

Quase ao final, quando Kiara procurava os objetos que seriam os “cisnes”, aquele mesmo menino, mais uma vez com firmeza apontou: “Os microfones! Esses são os cisnes!” – o reconhecimento foi geral. A própria contadora por estar tão “dentro” da cena, não havia percebido que as hastes realmente sugeriam cisnes com perfeição... “Eu estava perto demais para enxergar aquilo”, conta. Mas a partir daí, preparou a entrada triunfal do “patinho feio” entre os “cisnes”.

Também na história A roupa nova do Imperador houve surpresa pelas ligações acionadas no repertório do público. Sutilezas, como o caso de outro garoto que ao ouvir Kiara perguntar “o que não pode faltar numa história de imperador ou rei?”, respondeu pontual: “escravos!” – nesse momento temos uma noção de quanto o ato de contar e ouvir histórias fica no tênue limite entre a fantasia e o real.

Tais construções de pensamento são resultado da abertura ao diálogo e do estímulo visual de inúmeras bugigangas na mala. Imagine que em alguns casos um desentupidor de pia chegou a assumir a função de “tirador de ideia fixa e sentimento encalacrado”. Pela mesma “lógica”, um conduíte pode ser uma “antena”, um “intestino”, “uma lombriga”, “um telefone” e até um incomparável “contador de segredos para você mesmo”! Há ainda uma família inteira de fitas e barbantes tão emaranhados, que quase sempre representam “vidas” e “almas” – e todo mundo entende o porquê. Juntas ou separadas, a cada história, essas “coisas do mundo desconhecidas” – como diz Kiara – se tornam soluções. E completa “se eu posso repensar um sifão de pia, transformando-o num ‘cavalo’ ou num ‘coração’, eu posso qualquer coisa!”

O que move a História é a pergunta

No dia 05 de julho de 2009, como sempre faz aos domingos, Kiara se apresentou num dos mais novos palcos paulistanos – a Praça Victor Civita, próxima à marginal do rio Pinheiros, ao lado da Editora Abril. A praça em si, por seu projeto ambiental é um espetáculo à parte. Em uma grande plataforma de madeira, cuidadosamente planejada para atender às necessidades de sustentabilidade da vida contemporânea, há um palco que todo domingo à tarde tem seu fundo de madeira artesanalmente decorado – por um singelo varal de fitas coloridas tremulando conforme o vento. Mesmo naquela tarde fria, aos poucos as pessoas foram chegando. Com o tempo fechado os participantes podem não ser tantos, mas os novos se misturam aos que já conhecem o “esquema” e logo todos juntos vão ouvir e contar uma história.

As crianças menores se sentam nas almofadas marrons – o que não impede que jovens e adultos também garantam em uma ou outra o seu lugar. Há quem prefira ficar de pé. E aquele tempinho que precede a fala é a hora de procurar um colo, um abraço ou um ombro – e para isso não importa a idade. Aliás, o fato é que ninguém disse que para ouvir uma história é preciso ser criança. Ou nessa hora todo mundo passa a ser? Sei lá.

As histórias de amor parecem alcançar de modo mais particular os adultos. Então, já incluindo as crianças, Kiara começou a história Como papai e mamãe se apaixonaram, de Katharina Grossmann-Hensel (Editora Scipione, 2007), com as perguntas de uma garota curiosa. A contadora disse que aquela menina da história vivia fazendo perguntas difíceis e perguntou ao público se alguém ali tinha alguma pergunta difícil para fazer. Ninguém esperava que Lucas Domingues, na timidez e curiosidade de seus profundos cinco anos, erguesse o braço para perguntar “como é que a água entra no coco?”... Risadas e hipóteses foram levantadas. Desde a chuva sugada pelo coqueiro até a água nascer ali mesmo e ninguém sabe ainda de que jeito. A especulação foi interrompida por uma pequena avalanche de outras perguntas, como a de uma garotinha, com não mais que cinco anos, que arrumando os cabelos pretos e lisos que o vento lhe jogava ao rosto, perguntou séria: “e como é que o café entra na água?” – E foi assentindo com a cabeça num entusiasmado “quem aqui já tomou café levanta a mão!” que a contadora incorporou mais este mistério permeado por comentários sobre os gostos e tipos de café (que se não estivesse tão misturados à água, jamais sentiríamos aquele sabor...).

Sim! É claro que um dos mistérios mais famosos da humanidade não poderia faltar! Então o desafio foi lançado: “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”... E depois de um tempinho de brincadeira do tipo:

“de onde veio a galinha?”

“do ovo”

“e de onde veio o ovo?”

“da galinha” (...)

A garotinha do café, com ar de sabida, explicou pacientemente que “o ovo da galinha veio do galo pai”. Satisfeitos e alegres – com adultos pensando até na “maternidade” como tarefa social destinada a um só gênero – a história seguiu.

A habilidade e o esforço da moça para incorporar tais comentários ilustra bem a postura adotada diante de seu trabalho e de seu público. Eu já havia escutado Kiara dizer que “gostava de correr riscos”, mas na hora da história, em meio a tantos acréscimos e interpretações, a situação não poderia ser mais clara. Chega a reunir as propostas de nomes, como aconteceu ao criar as irmãs “Critalcrislaura” e “Esmeraldaelizabete”, quando contou A bela e a fera, no CCBB.

Tudo mostra o quanto um código de ética norteia o seu trabalho como contadora. Para ela, é uma questão de respeito ouvir e acolher na hora a palavra de seu ouvinte, que é também um colaborador ou coautor no processo. Por isso, não trata ninguém com ironia ou má fé, e procura ter o máximo cuidado para valorizar todas as respostas.

É comum ver um pai ou uma mãe “ajudando” o filho a erguer o braço – muitas vezes chega a ser engraçado, pois todo mundo vê que eles mesmos estão com vontade de falar. A esses, basta um olhar acolhedor – nem é preciso meia palavra. Geralmente, é assim quando a história chega no ponto de explicar “o que é que se sente quando se está apaixonado” – Ih... Todo mundo quer falar de sua “dor no estômago”, das “mãos suando”, do “coração disparado”...

Como acabar?

Diante de tantas possibilidades e rumos para se levar uma história, eis o grande problema enfrentando cotidianamente por Kiara: como acabar? Para mim, o mesmo dilema se coloca, pois sei o que vi e as inúmeras coisas que ainda nem cheguei a dizer. Dar continuidade seria mais fácil.

Pensando nisso, vale registrar o que aconteceu no CCBB quando uma criança mais afoita soltou antes da hora um entusiasmado “e foram felizes para sempre!” O público surpreso aguardou a reação de Kiara. Ela rapidamente foi em direção à mala, e embora o senso comum nos induzisse a pensar que ela simplesmente ignoraria a frase, voltou-se para a criança com uma fita métrica, explicando carinhosamente qual era o tamanho da história, em que ponto estávamos e em que ponto este triunfante final poderia ser pronunciado. A explicação foi tão clara, respeitosa e carinhosa, que não havia o que discutir.

No entanto, ela conta, aconteceu mais de uma vez, chegar o final e alguma criança acrescentar mais uma parte, e mais uma e mais uma... Nesse caso, conduz a conversa até que se chegue a um acordo ou pelo menos um “ciclo” concluído, deixando a próxima aventura para um outro dia.

Mas mesmo que o conto acabe, o evento não acaba tão rápido. Ao final de cada história todos são convidados a brincar com os objetos e alguns chegam a levar ou deixar alguma coisa de lembrança. No dia 13 de junho, ao final de sua última apresentação na exposição do CCBB, um garotinho de aproximadamente quatro anos, cabelos lisos castanhos e grandes olhos azuis veio até Kiara cutucando a própria mão direita. Ela, pensando que ele estava machucado, ao vê-lo se aproximar, perguntou:

“O que aconteceu aí?”

A resposta foi direta:

“Eu não ganhei nada!”

“Pode ser um pedaço de fita?”

Ele, ainda olhando a mão vazia, fez com a cabeça que sim.

E lá foi a moça desfazer algum cantinho de seus emaranhados novelos e entregar um pedacinho de fita de cetim azul para o rapazinho sair satisfeito.

Aconteceu também, na Praça Victor Civita, de Kiara esperar que a pequena Laura olhasse um pouco mais os objetos, fosse fotografada entre panos e fitas, para somente depois fechar a mala.

Pais e filhos olham, escutam, interpretam e têm uma experiência de que sempre é possível ler o mundo de uma forma diferente, num ritmo diferente. E nesta leitura, como diz Kiara, “o mais importante é ver que há de precioso está no humano”. Quando a mala se fecha, sempre fica muita coisa do lado de fora – fluindo como um rio, em ressonâncias de Heráclito e Guimarães Rosa.

Cada sessão é um “novo” encontro com a mesma e “nova” Kiara. E mesmo os frequentadores mais antigos são “novas” pessoas a cada evento. Rios que se renovam em movimento constante.

Enfim, há uma História maior torcendo para que todos sejam leitores para sempre e, nesta história, todo mundo é um caminho que vai.

Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. “O narrador”. In: Obras Completas. Volume II, São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

ECO, Umberto. Obra Aberta. São Paulo: Perspectiva, 1988.

FUNARI, Eva. Lolo Barnabé. São Paulo: Editora Moderna, 2001.

GROSSMANN-HENSEL, Katharina. Como papai e mamãe se apaixonaram. São Paulo: Editora Scipione, 2007.

MATOS, Gislayne Avelar. O ofício do contador de histórias: perguntas e respostas, exercícios práticos e um repertório para encantar. / Gislayne Avelar Matos, Inno Sorsy. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ORLANDI, Eni. Discurso e leitura. São Paulo: Editora Cortez, 2006.

ROSA, Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: Primeiras Estórias. São Paulo: Editora José Olympio, 1977.

TERRA, Kiara. A menina dos pais-criança. São Paulo: Ática, 2009.

Internet

http://www.kiaraterra.blogspot.com/ Data de acesso: 11/07/2009.

http://brunchdehistorias.blogspot.com/ Data de acesso: 11/07/2009.

http://matrice.wordpress.com/ Data de acesso: 11/07/2009.

http://pracavictorcivita.abril.com.br/ Data de acesso: 11/07/2009.



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4 comentários:

Márcia Golz disse...

Ai que inveja branca desta Rita! Queria ter escrito tudo isso, porque ela lê o coração da gente e escreve o que a gente vive ao te acompanhar com as histórias! Lindo mesmo.
Kikita, você é uma daquelas pessoas sem tradução. Como as Obras de Miró, como o azul e o amarelo de Van Gogh. A gente não explica, toma. A gente não sente, integra. A gente não pode pegar porque flui como um rio que se vai e que se torna outro lugar a cada minuto sendo ainda o mesmo belo e profundo rio.
É quase um estado da gente ser.
Eu diria que quando você conta histórias, dá forma pra felicidade. Dá música para o ar que a gente respira.
Eu espero que o mundo fabrique muitas kiaras, de todas as cores, tamanhos e idiomas. Certamente a gente entederá mais depressa o que é amor universal.
Bj nos pés

Tania disse...

lindo. lindo. que presente mais lindo esse texto!

ricardo nash disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ricardo nash disse...

kiara,
que saudade
que força
que delicadeza
que emocionante
que lágrimas
que lindeza
que conforto
que abraço
que quente
quanto amor inundando transbordando que não cabe dentro e pra sempre vontade de ser e viver eterna atriz mãe mulher criança